Vindimas no Douro 2003

 

Depois de muitas andanças pelo mundo, começámos a descobrir o Douro na Primavera. Regressámos em Setembro, para as vindimas. Soubemos que a  Associação dos Amigos do Museu do Douro organizava um encontro na Quinta de Sta. Eufémia, junto à Régua, e decidimos participar. Era um sábado luminoso, temperatura morna e doce com céus azuis estampados de nuvens. As encostas, talhadas em socalcos, tinham perdido o verde esmeralda de Maio: os ocres e os amarelos iluminados dominavam a geometria dos montes e vales.

Logo que chegámos fomos conduzidos de encontro aos vindimadores por caminhos de terra batida. Mal nos apeámos atribuíram-nos balde e tesoura porque havia que trabalhar. Percorremos fiadas de vinhas até encontrarmos os homens e as mulheres que, desde cedo, vindimavam uva bonita e madura. Afastavam as parras para, com a mão em concha, segurar os cachos que se desprendiam da videira com o corte certeiro de tesouras experientes. Quando um balde grande ficava cheio, um dos homens carregava-o às costas travado por um apoio a equilibrar a carga. Os baldes pretos substituíram os cestos, assegurando que cada vindimador não carrega mais do que XX quilos de uva às costas: a nostalgia do rústico cede aos argumentos de melhores condições de trabalho.

Rapidamente se enche a camioneta de caixa aberta que vai largar a carga ao lagar para regressar de novo. O trabalho desenvolve-se com ritmo, progredindo nos degraus amparados por paredes de xisto. O silêncio é aqui e além interrompido pelos cantos das mulheres, que são mais dadas aos risos e à cantoria do que os homens.

Depois do almoço – sopa e rancho servido em malgas de alumínio – e porque o lagar está cheio, inicia-se o pisar das uvas. Somos convidados a juntar-nos a um grupo de homens e mulheres, trabalhadores e visitantes, que marcham lentamente no  interior de um tanque de granito. Há que pisar com cadência, com compasso. Por isso, um cantador segue mais ou menos afinado a música espremida pelo acordeão. A roga é,assim, imprescindível para assegurar o compasso das passadas.

Pouco a pouco as uvas vão perdendo forma e adquirindo um tom único e novo que é uma mistura de cores que convoca ao mesmo tempo o vermelho das cerejas, o magenta das ameixas, o roxo das amoras.

Os especialistas  fazem previsões numa linguagem que escapa aos nossos ouvidos urbanos: roriz, touriga, tinto cão, bical, taninos. Atribuem adjectivos que julgavámos ausentes destas lides. Dos vinhos se dizem austeros, selvagens, elegantes, finos, equilibrados, vaidosos, discretos, distintos … qualidades que julgáramos só dedicados a gente de carne e osso.

Lentamente os aromas sobem de tom cheirosos, florais, frutados, prevendo-se sabores.

Ao fim da tarde pára a função, iniciando-se os mistérios dos efeitos das leveduras, o desdobrar dos açucares em álcool, os mostos que fermentam …

Despedimo-nos dos donos da quinta que participaram em toda a faina e dos parceiros de jornada. Regressámos ao Porto acompanhados pelo rio com os olhos cheios de cores quentes, os ouvidos embalados com cantigas e inquietados por palavras que desconhecíamos, o paladar estimulado pelas provas e pelos cheiros que inebriam olfactos pouco habituados a experiências tão fortes. Ansiosamente procurámos fotografar as vinhas, a paisagem e as pessoas que com gosto se ofereceram à máquina. E são as fotografias que nos podem fazer recordar as vivências de uma vindima num registo que queremos partilhar com os amigos. Mas o melhor é rumar até ao Douro num encontro com uma das paisagens mais agrestes e ao mesmo tempo mais humanas do nosso país.

 

Manuela Monteiro e João Lafuente