Veneza: máscaras de sedução

 O Carnaval é uma festa que na sua origem está relacionada com o solstício de Inverno e com rituais de fertilidade. O cristianismo passa a atribuir significados próprios a esta celebração, designando por Carnaval (do latim carne vale que significa adeus à carne) a festa que antecede o jejum e a abstinência – da carne e de outros prazeres da vida - a cumprir durante a Quaresma.

O Carnaval em Veneza é a festa.

  

Um homem só se revela verdadeiramente quando usa uma máscara.

Oscar Wilde

 Não há um Carnaval de Veneza: há vários carnavais que se manifestam nas diferentes máscaras. As máscaras mais conhecidas e que se apresentam como símbolo do carnaval veneziano são as máscaras de porcelana monocromáticas, intemporais que escondem  completamente a cara de personagens que vestem fatos espectaculares de cor e brilho. Deambulam entre as multidões pela praça de S. Marcos e nas margens da Laguna, oferecendo-se à fotografia dos turistas.

Contudo, os mais marcantes são os mascarados que reproduzem o estilo de vida da Veneza do século XVIII  e que frequentam os cafés Florian e Il Quadri, bem como os bailes dos vários “palazzos”. As cabeleiras, as rendas, as plumas, as pedrarias convocam a teatralidade dos gestos e a fantasia de se viver episodicamente noutra época.  A cara não está tapada por nenhum artefacto: o pó de arroz, o baton, o lápis dos olhos, os chapéus, os véus, ao mesmo tempo escondem e mostram aqueles que por uns dias fingem ser outros.  

É sobretudo a noite que empresta maior irrealidade a Veneza. Para um fotógrafo, as condições não são as melhores: a luz escasseia nos canais, nas pontes que ligam ruas, nos pátios, no interior dos cafés e dos palácios…Mas é nessa penumbra que os vultos dos mascarados nos fazem sentir o insólito de um outro tempo. Sacrificámos a nitidez que o sol oferece pelo mistério das sombras.  

De todas as encenações que dão sentido ao Carnaval em Veneza, a que pretendemos  registar foi o modo como os mascarados se relacionam com os outros, mais concretamente com o fotógrafo. No tempo de excepção que é o Carnaval, as máscaras  induzem uma relação, também ela de excepção. Os mascarados convocam o olhar da câmara, dão-se à fotografia. Este jogo de sedução não passa pela palavra mas pelos movimentos dos corpos, pelos gestos lentos e amplos, pelos olhares que abertamente convidam a um registo a que sabem que não acederão. Mais do que esconder, as máscaras desmascaram, entre outros, o desejo de se dar à fotografia.

Este tempo é curto. Na quarta-feira de cinzas, repõem-se as máscaras do quotidiano e os olhares voltarão a ser fugidios … até ao próximo Carnaval.

Manuela Matos Monteiro e João Lafuente