A luz não é singular, é plural. Não há luz, há luzes diversas, distintas: luz que aquece e que assusta, luz que fere e que cura, luz desenhada, geométrica e também íntima.
Certeira na lâmina de um microscópio, irrequieta e colorida em palco de concerto rock; fria e branca numa sala de operações, quente e densa em bar na noite gelada, serena, meiga e calada em quarto de meninos assustados.
Luz dissimulada, coada por abat-jours, véus e quebra-luzes e também previsível, necessariamente organizada por farol normativo.
Luz obediente, orientada do raio laser e luz difusa, dissidente numa manhã de nevoeiro.
Luz do telemóvel em silêncio que chama, intermitente, por atenção e luz ao fundo do túnel sabe-se lá de que problema. Luz de uma ideia, de uma revelação, de uma descoberta qualquer que ela seja. Luz dos olhares que se procuram, luz íntima que não se mede nem nos impensáveis anos-luz que não se define, que escapa às teorias corpuscular, ondulatória ou outras. Luz única. Desta luz, fala a poesia.
Luz fotografada
A fotografia existe pela luz, porque há luz, se há luz. Nesta exposição, a luz é o próprio objecto da fotografia: a luz é representada espacialmente em ondas de cor que se desdobram, decompõem e duplicam. Nos jogos de luz registados em papel, não há sombras, não há objectos representados. Libertadas da sua objectividade documental, as fotografias fixam cores, movimentos, formas que dão liberdade a cada um de produzir e inventar a (ir)reliadade. Luz plural.
Manuela Matos Monteiro e João Lafuente