A SUL DE DAKAR
Munidos de dados retirados da Internet, de guias e de informações de amigos que viajaram no Senegal, programámos com algum rigor uma viagem ao país mais ocidental de África. Tínhamos decidido permanecer pouco tempo em Dakar, o que se revelou uma boa opção, dado que é uma cidade enorme, barulhenta e suja e que com certeza exigirá tempo substancial para dar a conhecer o seu interesse.
Entre os nossos planos (ambiciosos como os de qualquer viajante que se preza) estava uma subida ao Norte para visitar a cidade de St. Louis de onde tínhamos referência à arquitectura colonial, boa comida e melhor jazz. Prosseguiríamos até Tambacounda, ao Sul, para explorar a paisagem de savana e visitar o Parque Nacional de Nickolo Koba. Contudo, o encontro com um holandês de 70 anos acabou por alterar os nossos projectos tão rigorosamente desenhados. Visitava há muito o Senegal, só que desta vez vinha para ficar, para fugir ao pagamento à ex-mulher de uma pensão de alimentos ruinosa. Falou-nos entusiasmadamente da “Pequena Costa”, região litoral a sul de Dakar. Seduzidos pelas suas descrições e pela notícia de um pequeno hotel propriedade de um português junto a Mbour, tratámos de rever os nossos planos decidindo rumar a sul, disponíveis para o que o acaso favorecesse.
Pelo caminho, fomos surpreendidos por sucessivos mercados de rua que ladeavam a estrada principal junto às povoações. Nos cruzamentos a palavra caótico ganhava todo o sentido: carros, motas, carroças, camionetas, burros, carrinhas adaptadas a transporte público, sinaleiros (?) conviviam numa desordem que acabava bem, sobrevivendo a estas travessias aceites como normais.
Reconhecemos que chegáramos ao nosso hotel: ouvia-se um fado na entrada. O dono, Joaquim (Kim para os amigos) entusiasmou-se com a nossa chegada ensaiando frases em português. De nacionalidade belga, deslocara-se a Portugal nos finais da década de 70 à terra de origem do seu pai, Oliveira do Hospital. Do nosso país mantinha uma imagem rústica e idílica, com os portugueses a fazerem serões às portas das casas em cavaqueiras amigas, chaves sempre na fechadura porque qualquer um é bem-vindo a qualquer hora. As nossas reservas a este mundo irreal (pelo menos hoje) não foram integradas, pelo que supomos que o Kim continuará a descrever a terra dos seus avós paternos como sempre contou. Instalámo-nos e foi a partir de Le Bounty que explorámos um Sul que se revelou fascinante.
Foi a pé, pela praia, que chegámos a Mbour, o maior centro de pesca do Senegal. No mercado, que se estende ao longo dos 200 metros da praia, o peixe é rematado no meio de uma algazarra e um frenesim de idas e vindas onde um pelicano se sente mais à vontade do que nós.
A cerca de 20 km situam-se duas cidades: Joal-Fadiout. Joal é a cidade onde nasceu o escritor e poeta que foi Presidente da República, Leopold Senghor, considerado por muitos o responsável pelo orgulho que se sente nos senegaleses. É da sua autoria o termo negritude para designar a particularidade das ideias, arte, cultura e do ser africano. Um pequeno museu resume a história da sua vida, que vai de par com a história do Senegal recente. Ligada por uma ponte de madeira está Fadiout, uma ilha composta exclusivamente por conchas de ostras e amêijoas que se acumularam ao longo dos séculos. Cristãos e muçulmanos(cerca de 90%da população) convivem harmoniosamente: a igreja da Virgem Maria situa-se junto da grande mesquita e no cemitério as campas cristãs estão a par das muçulmanas.
A viagem até ao delta formado pelos rios Siné e Saloum leva-nos a uma zona de mangais, lagoas, dunas e ilhas de areia. Uma descida em piroga pelos braços do delta deu-nos a ver flamingos, pelicanos e outros pássaros exóticos aos nossos olhos europeus.
Num jantar de despedida prometemos que enviaríamos gravações de Mísia, Mariza e Camané para substituir alguns fados e cançonetas portuguesas de gosto duvidoso.
Terminámos a nossa viagem na ilha de Gorée ao largo de Dakar, com cerca de 1000 habitantes e onde não circulam carros nem bicicletas. O Museu da Mulher e a Casa dos Escravos (séc. XVIII) são lugares onde se relata a história de discriminações e lutas pelo direito à igualdade. Passeamo-nos nas ruas estreitas, silenciosas e coloridas pelas buganvílias, pelas cores das casas e pelas túnicas e turbantes dos senegaleses que em todo o lado manifestam orgulho por si e pela sua terra. Os ocres, os amarelos, os rosa e magenta, os tons mostarda, o azul ciano combinam-se de modo surpreendente. Depois de uma viagem ao Senegal o modo como vemos e usamos as cores muda. E o modo de encarar os africanos também.
Manuela Matos Monteiro e João Lafuente